sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O Acre não existe... Para a mídia.


Assistindo ao noticiário local do Acre. Se compararmos ao noticiário nacional, realmente o Acre não existe. Rondônia está debaixo d'água, e os principais rios do Acre ( rio Acre, em Rio Branco e rio Juruá, aqui em Cruzeiro do Sul) estão prestes a transbordar. Se o rio Madeira, em Rondônia, subir alguns centímetros, o Acre ficará isolado por terra, pois as únicas rodovias q ligam o estado a outros lugares já estão inundadas. O abastecimento de combustível será interrompido. Haverá uma alta absurda dos preços, q já são altos, pois, com as estradas bloqueadas pela água, só avião chegará aqui. Mas o noticiário nacional foca, predominantemente, em RJ, SP, Brasília. Até uma batida de carro em SP é mais importante do q os problemas da região norte.

Selva!

A selva. Não, não estou falando da selva propriamente dita, o substantivo. Nos quartéis de selva, como é o caso daqui, de Cruzeiro do Sul, o vocábulo em questão se torna multifacetado, com múltiplas classificações gramaticais, diversos usos, que servem pra tudo e dizem nada, muitas vezes. É sério. Selva pode ser substantivo e qualquer coisa nesses quartéis. Traduzindo, de maneira bem didática.
Situações...

_Sargento, o senhor pode assinar isso aqui pra mim?
_Selva!
Adjunto de adverbial de... Negação? Afirmação? Certeza? Dúvida?

_Soldado, chegou atrasado por quê?
_Selva!
Incógnita total.

_Feliz Natal, Coronel, tudo de bom pra sua família, paz, saúde, blá blá blá...
_Selva! Selva!
Interjeição? Feliz Natal pra você também? ?????????

_Cara, estou na selva hoje... (sentido metafórico, pode ser "na merda"?)

Passa uma mulher bonita: "Seeeelva!" (Gostosa?????)

_Soldado, conserta isso aqui pra mim?
_Selva!
Sim, não, talvez, não sei, "já é"?????

_Isso é selva, hein!!
Adjetivo? Substantivo?

Despedida de qualquer situação, até e-mail: "Selva!!!!" ( a exclamação é obrigatória).

Um diálogo que não aconteceu, mas que poderia ter acontecido:

_E aí, selva!! (Tudo bem?)
_Selva!!!! (Tudo bem!!)
_Selva, né? (Calor, né?)
_Selva!! (Pra caramba!!)
_Selva, cara, selva... (Relaxa, cara, relaxa)
_Tá gostando da selva, cara? ( selva de verdade, até que enfim!)
_Selva!! (Sim ou não, gente, me perdi...)
_O trabalho aqui é selva! (puxado, uma merda...)
_Selva! (Ai, sim ou não, talvez, quem sabe??????)
_ Vou lá, selva!! (tchau???)
_Selva! (Tchau?????)

Resumo da ópera: vai tomar na selva.

Primeiro conflito linguístico em Cruzeiro do Sul

Na padaria...
I
_Bom dia, tem pão francês?_Olhe, pão caseiro acabou, só tem pão manual.
_????  Tá bem... Mas o que é pão caseiro e o que é pão manual?
_Olhe, pão manual é o pão normal.
 _??????
_E pão caseiro é tipo esse aqui (a moça me mostra um pacote de pão de forma).
_Ah, então tá, é pão de forma!
 _Não, esse é pão caseiro!!
_Me desculpe, moça, é pão caseiro mesmo (já me conformando que não ia conseguir o pão francês).

II
_ Isso aqui, é bolo de milho?
_Não, é cuscuz.
_E esse aqui, é bolo de aipim?
_Não, é de macaxeira. ( Aipim e macaxeira são nomes diferentes para mandioca, aipim no RJ e macaxeira no norte e nordeste).
_Ah, me desculpe. E esse aqui, é com cuscuz?
_Não, esse é de farinha de tapioca.
_Isso aqui é tapioca, não é, moça? _eu, quase desistindo.
_É. _a moça, já impaciente.

Sobrevivendo na padaria.

Rápidas impressões de Cruzeiro do Sul

Por causa da proximidade com a Cordilheira dos Andes, no Peru, a cidade parece um tobogã. É ladeira que não acaba mais. Desesperador. Estou morando na parte alta do tobogã, daqui de cima vejo grande parte da cidade.

Chove toda hora. Disse à Fernanda que é o regador da floresta. Toda hora alguém lá em cima rega a floresta.

Por falar em floresta, a cidade fica, literalmente, dentro da selva. Durante o nosso voo pra cá, sobrevoamos a floresta amazônica (experiência incrível!!!!!!) e localizamos a cidade, um "buraco" no meio da selva.

O comércio aqui começa a ficar agitado às sete da manhã. Cheguei ao açougue hoje às dez horas e já não tinha carne. Marco foi à feira no sábado por volta de dez horas, e não tinha mais fruta. Nenhuma. Quatro horas, tudo fechado. Ficamos sem pão ontem pois a padaria fechou onze da manhã. Coisas de inteiror.

Até a próxima.

Crônica do Dadau (mas quem é Dadau?)

Assim que cheguei, percebi que algumas pessoas falavam muito rápido (mais tarde, percebi que são as menos escolarizadas que assim falam). Às vezes não entendíamos uma palavra.
Seguinte situação: minha máquina de lavar deu problema. Chamamos um técnico, pessoa bem simples aqui perto de casa:
" E aí, moço, tem jeito nossa máquina?"
"Olhe, essa marca, Dako, gosto de pegar não, dá muito trabalho."
"Puxa, mas o senhor não sabe quem poderia consertar pra gente?"
"Olhe, tem jfjfydydufujcdefrhhppuhggdfwdwsfgjjhnbcxxfryikklpujgadergvbcdghn depois do posto perto da casa de dadau."

Leia a última frase na velocidade 10.

Estamos curiosos pra saber quem é Dadau.

Claro, joguei a máquina no lixo. Ninguém aqui conserta.

Isso aconteceu no final de janeiro de 2014.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O Acre existe? E Cruzeiro do Sul?

"O Acre existe?" foi a pergunta -piada que mais ouvi quando comuniquei que iria morar no estado. Ainda me perguntam, e vejo como ainda existe brincadeira por conta disso. Mas, se o Acre não existe, o que dizer de Cruzeiro do Sul, a cidade localizada no ponto mais ocidental do Brasil, lá onde o vento, literalmente, faz a curva? Existe sim, e como...
Cheguei à cidade no final de janeiro de 2014, e me surpreendi absurdamente. Cruzeiro do Sul é a segunda cidade mais importante do Acre, ficando atrás apenas da capital, Rio Branco, com cerca de 75 mil habitantes. Uma cidade localizada no meio da selva amazônica, literalmente, com uma urbanização crescente, comércio bem desenvolvido e pessoas de muitos lugares do Brasil, além dos cruzeirenses, claro. Rostos, sotaques e culturas que se misturam, uma terra próspera para mão de obra qualificada. Lugar de contrastes sensacionais; em um mesmo ângulo, é possível apreciar a floresta a perder de vista e a cidade em desenvolvimento. Histórias de vida incríveis, de gente que quer vencer na vida. 
Tenho muita coisa para contar. Acompanhe, e descobrirá que existe um paraíso perdido por aqui, como declarou Euclides da Cunha em suas andanças pelo Acre.